Blog

Serralves

Uma Paisagem Aprisionada!

Este projeto é uma viagem pelos jardins de Serralves em diferentes objetos metálicos.

Os objectos aprisionaram os espaços no seu interior.

©J.Vieira

Conversas de Loucos...

A chuva cai lá fora ora lentamente, ora ferozmente. No interior da casa tudo parecia calmo, não se ouvia um único ruído, para além do zumbido do vento a passar entre a fresta da janela e da chuva a embater na mesma.

Ele estava onde sempre esteve, desde há anos, esquecido naquela vitrina, daquele armário com marcas de idade, com traças a consumi-lo por dentro e por fora.

Fora dos primeiros pires a habitar aquele armário. Lá viveu durante muito tempo com o seu amor, aquela chávena branca, lisa e altiva.

Conheceram-se numa mesa, após serem desembrulhados daquela caixa onde estiveram separados longos tempos, por aquele papelão amigo, mas imóvel. Mesmo sabendo que estavam destinados um ao outro, desde o seu estado embrionário, ate ao seu nascimento de fabrico, ansiavam o primeiro toque.

Certo dia, numa mesa onde a vela ardia e o livro aguardava ser tocado, ouvia-se o tilintar de duas almas gémeas, eram elas, a chávena e o pires. Encontravam-se naquela mesa, com um ambiente familiar de repouso pós leitura, aguardando o evaporar do líquido vazado para a chávena.

O pires estava deliciado pelo aquecimento prévio emitido pela chávena, ela era tão bravia, quão delicada, a harmonia entre ambos era inexplicável e o seu encaixe era perfeito.

Dentro dela estava um cremoso café prestes a ser consumido para o interior do Homem, ao ouvirem os passos dados, vindos do fundo do corredor em direcção a eles, ficaram inquietos, aí vem ele, pronto a tomar a chávena na sua mão, deixando o pobre pires sozinho naquela mesa, que outrora fora acolhedora e o seu ninho de amor.

O Homem chegou, mas quando estava prestes a tomar a chávena do pires, esquivou-se com habilidade, para alcançar a colher que repousava nos seus braços.  

Alcançando aquele objecto de metal, frio e desnudo, esquivando-se como um espadachim, adicionou aquela ‘pólvora’ dental (açúcar) no centro em fogo da chávena, onde segundos depois, finalizou em um só golpe, penetrando-a sem dó nem piedade.

Os movimentos da colher eram perfeitos, circulares e delicados. Via-se uma dança envolvente e cintilante, entre cores e um silêncio melódico, como que o reencontro entre dois amores.

Alguns milésimos de segundos bastaram, para o néctar se aperceber da harmonia entre elas, sentindo a necessidade de abandonar aquele interior, antes quente, mas agora ardente.

A colher que em tempos fora a amante do pires e vezes sem conta rodopiou em torno do seu corpo e adormecera nos seus braços, apaixonou-se ao primeiro toque pela chávena. Foi um toque surreal, que estremeceu o interior, irradiando uma luz quase cósmica, com raios penetrantes e cheios de energia.

O toque da colher, na pele cerâmica da chávena foi subtil e delicado, como que à descoberta de um novo mundo, de um novo ser.

Os segundos eternizaram-se e cada volta da colher na chávena era um jogo único, simples e completo, uma verdadeira volta de 360 º.

Neste jogo de sedução a chávena deixava-se ir pela leveza da colher acariciar o seu corpo, esquecendo-se do seu amor destinado ao pires e até do mesmo.

O pires ficara estático e o seu corpo ficara gélido, uma vontade crescente de as absorver surgiu, mas em vão.

Os seus nervos culminaram e o seu “cérebro” queimou, o fumo soltou-se consumindo-o por breves instantes.

Momentos depois dava-se a separação, daquelas duas matérias inanimadas, mas apaixonadas.

O Homem surgiu e com as mesmas mãos que as juntara, separou-as num acto de fúria e discriminação, formando um splash repulsivo com o néctar contido no interior da chávena, transbordando para o pires.

Num fragmento de segundo, todos aqueles momentos vividos por ambas, se dilaceraram como um fio de luz a desaparecer no infinito.

O desprezo do homem era tanto, que após ter observado todos aqueles momentos intensos à margem, o seus olhos disparavam ódio por todo o lado, quando de repente num só acto esquecendo-se da sua vontade consumista de tomar aquele cremoso néctar, atira a chávena contra o chão, partindo a causadora de todas as paixões.

Quebrando assim, todos os corações de uma só vez!

Agora o pires sozinho e perdido, encontra-se no mesmo armário, que outrora fora a sua real casa de amor e traição, deixando o pó acumular por todo o seu corpo, tentando esquecer o aquecimento e o encaixe perfeito da sua alma gémea, que antes o traíra com a colher, sua amante.

Por sua vez, a colher fica esquecida na gaveta, nunca mais tocando em alguma chávena ou pires. Seu amor foi único, intenso e inesquecível.

Moral da História: Todos amamos e ficamos sós um dia.